Zona Neutra – O cotidiano Trágico

 

Você acorda de manhã e lê no facebook, enquanto escova os dentes, que uma mulher foi morta pelo namorado.

 

Daí você pega o metrô e tem um engraçadinho parado bem atrás de você, se aproveitando do sacolejar para raspar a pelve na sua bunda.

 

Cansada antes das 9h, você chega num trabalho onde existem pouquíssimas mulheres, e a solidão bate quando você percebe como “não pertence” àquele espaço.

 

No almoço, você recebe um fiu fiu ao atravessar a rua.

 

Na volta, você aperta o passo porque anoiteceu.

 

Chega em casa, pilhas de roupa suja, louça, crianças a sua espera e um marido inútil no sofá.

 

E no dia seguinte, é tudo de novo, com vilões diferentes, rostos e vozes novos, e ainda assim você se sente presa a uma realidade que parece te derrubar de todas as maneiras.

 

Se você se relaciona com alguém e seus nudes vazam, você é a vagabunda por ter se deixado fotografar.

 

Se apanha, provocou.

 

O tempo corre, os anos passam, e o círculo vicioso das humilhações cotidianas continua e você só falta unhar a garganta até aquele grito de indignação sair.

 

E sabe o que é pior? Não é o universo conspirando pessoalmente contra você.

 

Não é nenhum político caçoando da sua humanidade e condição feminina.

 

É só como o mundo foi construído, por milênios, ditando nossos corpos, falas, ações, sexualidade e desejos.

 

Nós somos vistas como coisas, uma decoração, um objeto de desejo para homens que não aceitam um não.

 

Agora, minha dúvida é... até quando vamos deixar ser assim?

 

Quanto tempo mais nos manteremos a disposição das conjecturas de homens limitados?

 

Até quando vamos aceitar os estereótipos e lugares pré determinados, vamos lavar a louça sozinhas, vamos cuidar dos filhos sozinhas?

 

Até onde vamos suportar ganhar menos, nos calar aos julgamentos, compactuar com atrocidades?

 

Cadê nossa fibra, nossa luta, nossa voz?

 

Diga não, questione, se imponha. Faça com que sua voz seja ouvida o tempo todo.

 

Deixe que te chamem de chata, de insuportável, de intragável. Diga o quanto está cansada e admita que não vai mais se calar.

 

Lute pelo seu espaço TODO DIA, porque se não fizermos isso por nós, ninguém mais fará.