O que é gaslighting?

 

Em tradução literal, significa manipulação, para nós, gaslighting é uma conduta inserida na violência psicológica que tem por finalidade, é uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade.

 

A Violência Psicológica é considerada qualquer conduta que: cause dano emocional e diminuição da autoestima; prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento da mulher; ou vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões.

 

Casos de gaslighting podem variar da simples negação por parte do agressor de que incidentes abusivos anteriores já ocorreram, até a realização de eventos bizarros pelo abusador com a intenção de desorientar a vítima.

 

O termo deve a sua origem à peça teatral Gas Light e suas adaptações para o cinema, lançadas em 1940 e 1944, motivaram a origem do termo por causa da manipulação psicológica sistemática utilizada pelo personagem principal contra uma vítima.

 

O enredo diz respeito a um marido que tenta convencer sua esposa e outras pessoas de que ela é louca, manipulando pequenos elementos de seu ambiente e, posteriormente, insistindo que ela está errada ou que se lembra de coisas incorretamente quando ela aponta tais mudanças.

 

O título original decorre do escurecimento das luzes alimentadas por gás na casa do casal, que aconteceu quando o marido estava usando as luzes no sótão, enquanto busca um tesouro escondido.

 

A esposa percebe com precisão o escurecimento das luzes e discute o fenômeno, mas o marido insiste que ela está apenas imaginando uma mudança no nível de iluminação. O termo Gaslighting é utilizado desde 1960 para descrever a manipulação do sentido de realidade de alguém.

 

No que diz respeito às mulheres em particular, a psicóloga Hilde Lindemann argumenta enfaticamente que, nesses casos, a capacidade da vítima de resistir à manipulação depende de "sua capacidade de confiar em seus próprios julgamentos." A criação de versões alternativas dos fatos pode ajudar a vítima a readquirir "níveis normais de livre-arbítrio."

 

A psicanalista Simone Demolinari, de Belo Horizonte, completa alertando que, se a prática abusiva era inicialmente mais observada no contexto amoroso, agora está em todas as áreas da vida.

 

Que mulher nunca ouviu de um homem “você está imaginando coisas” ou “você está louca”, quando tudo o que estava acontecendo era bem real? O gaslighting é bem comum e pode aparecer não só nas relações amorosas, mas também no trabalho e até nas amizades.

 

Essa e outras frases fizeram parte da criação e socialização de muita gente. Quem nunca escutou um tio no churrasco de família “brincando” que todas as mulheres são loucas? “Você está exagerando”, “mulher é muito sensível”, “você está imaginando coisas”, “ele só traiu porque ela é frígida”, “só foi procurar na rua porque não tinha em casa” são outros exemplos de frases corriqueiras que colocam a mulher na posição de desequilibrada ou insuficiente.

 

O gaslighting é tão prejudicial quanto a violência física. Mas por acontecer de maneira mais sutil é mais difícil que a mulher perceba que é vítima até que já se encontre completamente anulada, sem autoestima e insegura.

 

Quando a vítima não percebe desde o início o jogo do abusador, ela tenta argumentar, mas perde a força, dando espaço para as mentiras, inversões e total manipulação.

 

O gaslighting é sutil e muito difícil de compreender para amigos e familiares e para as autoridades. É abuso mediante o qual se desgasta a autoestima e a confiança da mulher em si mesma a ponto de anulá-la, de transformá-la em um punhado de dúvidas e medos. Quase nunca exige o uso da violência explícita.

 

Em não poucas ocasiões, o próprio entorno da vítima não percebe que essa situação seja um abuso. Em geral costuma ser interpretado como problemas de casal ou altos e baixos. Um cenário que empurra a mulher para se fechar em si mesma, não compartilhar a problemática e até, às vezes, convencer-se de que, assim como não param de repetir, não está sendo vítima de abuso.

 

Isso desemboca em cenários muito graves. Muitas mulheres só são capazes de reagir quando são agredidas fisicamente. Também, às vezes, é quando o entorno e as autoridades abrem os olhos.