Zona Neutra – Abuso de Idosos

 

Uma vez me disseram que não se envelhece, se rejuvenesce.

 

Claro que eu duvidei, eu mesma era uma criança e achava absurdo pensar que minhas avós virariam crianças de novo. Elas eram adultas, trabalhavam, tinham suas aposentadorias e eu não conseguia imaginá-las correndo no parquinho junto comigo.

 

Hoje, eu vejo que minha imaginação infantil desconsiderou muitas coisas, e o dito fez sentido.

 

A tendência com a idade é tornar-se frágil. Seja por uma doença física ou psicológica, ou financeiramente, a tendência é que o idoso fique vulnerável aos outros, assim como uma criança depende dos pais.

 

E obviamente, devido a vulnerabilidade, existem seres que se aproveitam disso, dessa infantilidade, para abusar física, psicológica, financeiramente ou até sexualmente do idoso. E aí que mora o perigo.

 

Como uma criança, o idoso não sente que tem voz, que acreditaram nele. Não há denuncia do abuso, e cabe as pessoas próximas prestarem atenção.  Um idoso que está constantemente roxo é um sinal, assim como seria em uma criança vítima de maus tratos.

 

Um idoso que não denuncia tem um motivo. Seja por incapacidade intelectual, ou por medo do cuidador, há uma razão pela qual o meliante não é exposto, e quando descoberto, o idoso tampouco deve ser julgado por não ter falado antes.

 

Mas a nós, cabe aceitar que a velhice chegou, que nossos pai serão nossos filhos, e a cuidar deles quando eles mesmos não podem. E sei que é pesado ser mais adulto do que quem te ensinou a ser adulto, mas é preciso.

 

Haja paciência às vezes, concordo, mas faz parte da vida, do ciclo que conhecemos tão bem desde que o Rei Leão foi lançado. Esse ciclo sem fim não vai parar em nós, e temos que ter a sabedoria em aceitar que um dia, são os nossos filhos que serão os adultos.

 

Mas se um dia você perceber que seus pais, avós, tios, estiverem em situação de violência, não hesite. A denúncia deve ser feita para que o abusador não tenha como se aproveitar de outro. E se engana quem pensa que não há reincidência, pois um caso não denunciado, é um caso repetido.

 

Observem os sinais, as palavras não ditas. Aprendam a ler os seus velhinhos como eles sabiam exatamente o que você aprontava na adolescência. Amor e cuidado são vias de mão dupla, e o não dito é sempre mais importante.

 

Há de se saber quando intervir, quando aquela fratura na bacia foi osteoporose ou violência, quando o não retorno das ligações é realmente pelo Alzheimer. A percepção que teríamos quando uma criança não quer contato com alguém, deve ser direcionada para o idoso que nega veementemente que aquele roxo no braço foi de um apertão.

 

Infelizmente a vigilância é necessária, e se você que é idoso e me lê hoje, se estiver em uma situação ruim, conte para alguém. Diga que não está bem, que precisa de ajuda. Procure a polícia, um médico, advogado, assistente social, o que for, mas procure ajuda.

 

O Medusa está aqui por você também, se não souber por onde começar.

 

E como vale lembrar, a culpa não é da vítima.