Zona Neutra – O dia que não paguei meus impostos

 

Acordei um belo dia de manhã, e indignada com o descaso público e pessoal com a minha condição de mulher, procurei uma advogada e questionei:

 

- Se eu ganho em média 22% a menos que os homens na mesma função, então por que pago o mesmo valor de impostos?

 

A advogada, coitada, informou que somos todos iguais perante a lei, eu rebati, e no final a convenci que pagar menos impostos era o certo. Entramos com a representação e foi furor nacional. Me chamaram de folgada e oportunista, dentre os elogios mais educados.

 

E então outro questionamento veio.

 

- Se eu não posso decidir sobre meu corpo e reprodução, se não tenho segurança para andar na rua, se sou xingada pela minha sexualidade, por que eu pago qualquer imposto?

 

E o movimento tomou forma.

 

Mulheres saíram de suas tocas, enxergaram o sentido, compactuaram com minhas ideias mais malucas, e quando vi, estávamos unidas em passeatas a favor da igual remuneração, ou impostos reduzidos.

 

Era nosso grito de independência, “redução do imposto ou morte”. Mulheres largaram seus trabalhos e foram para as ruas, deixaram seus maridos com os filhos em casa, pararam a economia do país todo por um dia e deixamos claro que sem nós, não existe nada.

 

A corte federal enlouqueceu, julgando recursos e buscando respostas que não existiam. Por que, no final, tínhamos as mesmas obrigações e menos direitos? Onde a lei falhava em cruzar com a realidade?

 

Nossa, marcha deu frutos, após muita luta e atentados violentos contra a minha vida. Fui autorizada a pagar menos impostos, e a coisa foi só o começo. Logo, mais e mais cortes no país acataram os pedidos de mulheres para a readequação tributária.

 

A chama loucura nacional atingiu todas as classes sociais, todas as mulheres independente do alinhamento político. Porque quando falamos de dinheiro, é que a coisa toma forma, quando mexe no bolso é que a revolta vem.

 

Nesse panorama, o que me fica na cabeça é o quanto da história é digna de distopia, e o quanto é realidade. Houve uma marcha nacional por igualdade em algum país do mundo? Alguém teve redução ou zerou os impostos? Alguma mulher sofreu violência por levantar a voz contra um sistema falido?

 

Longe de mim incitar uma revolução, realmente não está nos meus planos virar uma mártir, ou dar ideias loucas.

 

Mas... já pensou?